A respiração deixa de parecer automática sempre que percebemos que estamos respirando. Até esse instante, o corpo trabalha em silêncio, conduzido por mecanismos antigos e precisos que não exigem nossa atenção
Esse fenômeno não significa que o corpo perca sua autonomia, mas revela o poder da atenção. Ao perceber a respiração, deslocamos a ação do campo do inconsciente para o da consciência. Passamos a sentir o ar entrando, o peito se movendo, o ritmo se ajustando. É como acender uma luz em um quarto que sempre esteve ali, nada mudou no espaço, apenas o modo como o percebemos.
Essa transição também diz muito sobre a relação entre mente e corpo. A respiração ocupa um lugar singular: é automática, mas pode ser voluntária; inconsciente, mas acessível à consciência. Por isso, ela se torna uma ponte entre o que somos sem pensar e o que escolhemos ser ao pensar. Talvez seja nesse intervalo — entre o automático e o consciente — que percebamos o quanto nossa atenção transforma a experiência, mesmo quando não transforma o funcionamento do corpo em si.


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