A agonia do gigante

dezembro 20, 2017
Artigo por Antônio Spada


A pergunta que incomoda: quem é dono da pureza do ar e do resplendor da água?

          1855. A marcha para o Oeste nos Estados Unidos é retratada nos filmes de cowboy como um embate entre vilões sanguinários e violentos (os índios) e os mocinhos (aventureiros de toda espécie que procuravam conquistar as pradarias e as terras indígenas a rajadas de balas). Mas espere aí, cara-pálida, quem eram mesmo os vilões? Entrou para a história uma carta que o chefe índio Seathl, da tribo Duwamish, enviou ao presidente dos EUA, Franklin Pierce, respondendo a uma proposta de compra das terras de sua tribo. Na carta, o “selvagem” mostra a grandeza de seu espírito ao estupefato presidente.

          “Como podes comprar ou vender o céu, o calor da terra? Tal ideia é-nos estranha. Nós não somos donos da pureza do ar e do resplendor da água. Como podes então comprá-los de nós?” Nesse trecho, e acrescentando ainda que os animais “deveriam ser tratados como irmãos”, entre outras menções de igual quilate, o velho índio dá uma autêntica lição de sabedoria humana e riqueza espiritual. Atributos que neste nosso Brasil de hoje, passados quase 200 anos, não são tão praticados quanto deveriam.

          Cortemos para Goiás, neste 17º ano do novo século. O que anda acontecendo com o nosso Araguaia? Fotografado, filmado, cantado em prosa e verso, esse espetáculo da natureza praticamente já entrou na reta final de seu desaparecimento. Restarão apenas filmes e fotos, e também a sensação de impotência diante da tragédia: sim, nós ferimos de morte o gigante. E a quem devemos isso? À nossa omissão e aos aventureiros da hora, com ênfase para o que liquidam as matas ciliares, destroem nascentes e afluentes e roubam impunemente as águas daquele leito sagrado.

          Recentemente uma reportagem de TV mostrou dragas potentes sugando sem parar as águas do Araguaia. São milhares de litros extraídos por segundo. No dia 6 de novembro o delegado Luziano Carvalho, titular da Dema (Delegacia de repressão a Crimes contra o Meio Ambiente), apresentou informações a respeito de procedimentos e investigações sobre captações irregulares de água ao longo do rio. A operação já indiciou 20 grandes produtores rurais por desmatamento, utilização indevida de nascentes, construção de represamentos e captação de água para irrigação sem a devida licença. >>


>>        “Em Luiz Alves, por exemplo, estão drenando água que deveria estar indo para o rio, e matando os peixes sem qualquer controle. Querem a água apenas para irrigar plantações ou matar a sede do gado. Com isso já existem hoje vários pontos do Araguaia naquela região que podem ser atravessados a pé”, salientou o delegado. O próximo passo, segundo ele, é cercar todos os lagos e nascentes do Araguaia. Que bom que isso está sendo feito, e que seja rápido, porque esse paciente encontra-se em estado terminal. E não podem, homens e natureza, serem penalizados pelo egoísmo e ganância de uns poucos. E cabe repetir a pergunta do velho índio: quem é dono do resplendor dessas águas?

          E o turista, o cidadão comum, tem alguma coisa a ver com essa degradação? Tem. Segundo observadores o uso intensivo de lanchas e jet-sky provoca ondas que arrebentam nas margens, num impacto perpendicular, o que contribui sobremaneira para o assoreamento do rio. Isso sem falar no lixo e outras mazelas, é claro. Hoje atravessa-se o Araguaia em alguns pontos a pé, e mesmo de motocicleta. Algo impensável há poucas décadas.

          Então é isso. Ou Goiás levanta essa bandeira com determinação e responsabilidade, ou nossos filhos e netos terão como lembranças do Araguaia velhos filmes e fotos. Amarelados pelo tempo, das cores do pôr-do- sol naquele outrora reino encantado. É triste, mas é a realidade.

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OUTRA DO TEMER - De sua parte o governo Temer diz que está agindo em relação ao meio ambiente, mas essa ajuda anda a passos de tracajá do Araguaia. Em outubro assinou decreto que permite converter multas ambientais ainda não pagas em prestação de serviços nessa área. Desconto? Sessenta por cento para quem aderir. Há no governo atualmente R$ 4,6 bilhões em multas ambientais passíveis de conversão, segundo a presidente do Ibama, Suely Araújo. Está certo. O governo pode abrir mão desse dinheirinho de troco. Não vai fazer falta. Na ocasião Temer assinou também medida provisória que amplia de seis meses para até dois anos a contratação de brigadistas para atuarem na prevenção e combate a incêndios em unidades de conservação. Agora é rezar para que as queimadas respeitem esse generoso calendário governamental.

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