Até quando aceitaremos o terrorismo como “liberdade de expressão”?

12.4.16
Gregório Duvivier
O humorista Gregório Duvivier completou 30 anos nesta segunda-feira (11/4). A página do coletivo Porta dos Fundos, grupo do qual faz parte, postou um gif em comemoração ao aniversário do carioca. Bastou alguns minutos para que alguns usuários transformassem a homenagem em baixaria.

Costumaz defensor do governo da presidente Dilma Rousseff (PT), Duvivier — que também é (brilhante) articulista — virou uma espécie de algoz pessoal dos revoltadinhos das redes sociais. Sofre, diariamente, as mais diversas acusações, xingamentos e ofensas porque, como qualquer cidadão, tem o direito de expressar seus posicionamentos.

Deixo claro que não comungo com as ideias e preferências políticas da pessoa Gregório Duvivier, digo que estamos em dois lados opostos, inclusive. Contudo, isso não me dá o direito de sair por aí vociferando acusações infundadas e maliciosas. Muito menos ir ao seu local de trabalho, por assim dizer, e tentar intimidá-lo.

Nesse clima de FlaFlu, achando que o Brasil virou um verdadeiro estádio de futebol, onde aceita-se qualquer tipo de palavrão para expressar sua insatisfação, o brasileiro passou a usar as redes sociais para reproduzir o ódio. Duvivier é vítima dessa paixão ridícula e infantil que tomou uma parcela da sociedade.

Antes que alguém possa questionar: “É liberdade de expressão!”. Não. Não é. Nunca foi. E nunca será.

Quando era aluno do Colégio Militar do Estado de Goiás, onde estudei minha vida toda e ao qual sou muito grato, escutava sempre: “Não confunda liberdade com libertinagem”. A liberdade permite que todos possamos agir sem amarras, de forma que não sejamos submissos a outrem. A libertinagem é, justamente, o abuso desse direito, sem se preocupar se a liberdade do outro está sendo violada.

O que essas pessoas fizeram na página de Porta dos Fundos é a mais pura expressão da libertinagem. Chamá-lo de “ladrão”, “vendido”, “corrupto” e toda sorte de insultos não acrescenta em nada ao debate político. Sem contar que é, entrando no campo de juízo de valores, uma tremenda falta de respeito.

Duvivier, até que se prove o contrário (o que não aconteceu até hoje, não é mesmo?), é um homem honesto. Profissional talentoso e competente. Todos os textos são embasados teoricamente, coerentes e expressam sua visão do Brasil. E do mundo. Evidentemente, não agradam a uma parcela da sociedade que não aceita, de jeito nenhum, que nem tudo que os governos do PT fez foi corrupção. Só que, repito, isso não é passaporte para a agressão.

Há uma insatisfação geral com a atual situação econômica do País. Ninguém está feliz por estarmos em recessão, por haver menos ofertas de emprego e por centenas de brasileiros estarem voltando à pobreza extrema. Aliás, existe, sim, um grupo de extremistas que comemoram cada vez que um jornal estampa a variação da inflação ou o número de desempregados. Só que não é Duvivier que faz parte desse grupo.

Esse grupo, que quer ver o País afundar em desgraça (essa é a verdade), torce contra o governo dia e noite, ao ponto de sugerir que deve haver uma “guerra civil” ou mesmo o assassinato da presidente da República. Inclusive, na página do Porta dos Fundos, encontrei alguns seres pensantes (?) desejando que a existência de Duvivier seja encurtada.

Isso não é liberdade de expressão.

Não gostou do vídeo de Portas do Fundo sobre a Polícia Federal? Não assista, não compartilhe, marque “não curti” no Youtube. Agora, criar campanha para “tirar o vídeo do ar”? Atacar o trabalho de um coletivo de humor? Sugerir financiamento público? Francamente, isso é ridículo.

Tão ridículo quanto receber um parlamentar, eleito por sufrágio universal, no aeroporto com xingamentos, ofensas e ataques gratuitos. A senadora Gleisi Hoffmann, do PT do Paraná, foi humilhada por um desses grupos políticos — porque é isso que são: grupos políticos — quando chegava em sua terra natal na semana passada. Isso é liberdade de expressão? Não! Isso é terrorismo.

Não menos terroristas são os comentários que (assustadoramente) recebem milhares de curtidas na página de Porta dos Fundos. Uma tentativa de intimidar o humorista, desqualificá-lo como profissional e, mais grave, desmerecê-lo como cidadão.

Vale destacar que é direito protestar, ir às ruas contra o que não se acha correto e expressar sua insatisfação. Há momentos que precisamos extravasar, gritar e nos revoltar. A revolta é importante. Demonstra o desejo de mudança, expressa a vida e o inconformismo. Quem se contenta com a mediocridade, medíocre será.

Mas, não é possível lutar por mais direitos desrespeitando o direito do outro. Não é possível conquistar mais, cerceando o outro. Não é possível avançar, rebaixando o outro. É preciso respeito, tolerância e compreensão.

Não é na porrada, no cacete, que vamos conseguir que nossa voz seja ouvida. Aliás, a porrada e o cacete, na história recente do Brasil, só serviram para abafar a voz do povo…

Feliz aniversário, Gregório Duvivier! Keep on keeping on!

Fonte: Alexandre Parrode - Jornal Opção

Postagens

Anterior
« Anterior
Próxima
Próxima »

Comente com o Facebook: