Vale a pena viver?

12.2.17

Conheci uma pessoa, muito querida por sinal, que entoava com frequência um mantra dos mais negativos. Dizia ela: “A vida não vale a pena ser vivida”. Caramba!, pensava eu. Isso lá é modo de encarar a existência? Pode até ser que de vez em quando a gente pisa na jaca podre, dá uns escorregões e esfola os joelhos, mas daí a afirmar e acreditar numa barbaridades dessa... é querer acabar com o pequi de Goiás, como diz outra amiga quando quer se referir a algum absurdo descomunal. E sempre que ouvi aquela pessoa espargindo sua incredulidade a respeito de algo que se conhece por felicidade (sentimento que ela certamente nunca ou muito pouco experimentou), não podia deixar de me condoer por ela.

Pois bem, o que será essa tal felicidade que alguns desfrutam até com certa regularidade, outros de vez em quando e muitos ignoram completamente essa possibilidade? Depende basicamente de onde colocamos nossa referência de vida, e aqui existem apenas duas possibilidades: ou a centramos no EU; ou naquilo que nos rodeia, orientado pelo EGO. Tudo na vida constitui basicamente uma questão de escolha. Nossa vida, amanhã, será uma consequência da escolha que fazemos hoje. Também chamada lei de causa e efeito. Ou, num exemplo bastante popular e claro: se eu planto pepinos, fatalmente irei colher pepinos; jamais encherei o cesto de uvas.

Segundo a teoria da referência do EU (autorreferência) ou do EGO (objeto-referência), enunciada pelo psicólogo Deepack Chopra, quando elegemos a opção pelo EU nós resgatamos nossa identidade divina, encontramos nossa essência espiritual, e entendemos que somos todos iguais, nem piores e nem melhores do que os outros. Já quando centramos nossa vida no objeto-referência, aí a coisa começa a se complicar. O que passa a ter valor são coisas, objetos, poder, dinheiro, cargo e função. Tudo aquilo que pode ser conquistado mas também perdido. E quando se perde o dinheiro, o poder, todos esses fatores transitórios e ilusórios, perdemos também o Norte e a própria alegria de viver.

Vamos exemplificar: o general que passa para a reserva. Até ontem ele tinha o comando da tropa e os canhões; ao vestir o pijama, como dizem, perde completamente o poder e sua referência de vida. O mesmo acontece com o CEO de uma grande empresa; com o artista badalado que vê seu público minguar; e assim em praticamente todos os setores da vida humana. Ou seja: não temos o menor controle sobre a efetividade do objeto-referência, e isso explica por que tantas pessoas querem ter mais e mais. O medo da perda as leva compulsivamente a uma roda viva alucinada de querer ter sempre mais e mais.

E quando esse cenário de desastre se materializa, quando o espírito é impotente para reagir diante da adversidade, entra no palco um dos mais temidos gigantes de nossa alma: a depressão. Traiçoeira, obstinada, a depressão vai envolvendo o sujeito numa rede de tentáculos que o asfixia, tolhe sua vontade e capacidade de discernimento. Daí a fuga para as drogas e o próprio auto-abandono pode ser questão de tempo, muitas vezes chegando às raias do suicídio.

Você precisa mudar? Quer mudar? Então exerça o seu livre-arbítrio e refaça suas escolhas. Por exemplo: já há alguns anos não viajo de carro para São Paulo sem escala. Para mim, são mais de 900 km de pura diversão. Saio de Goiânia ao entardecer e de madrugada paro para dormir em alguma cidade paulista. Cada vez em uma diferente. Vou conhecendo cidades, pessoas e sabores de comidas nativas – inclusive nos postos de beira de estrada. Chego depois da metade da tarde, satisfeito, descansado e pronto para enfrentar o trânsito francamente hostil.

Você quer ser feliz? Pois então escolha a felicidade como companheira de viagem e pratique-a intensamente todos os dias. Ninguém precisa necessariamente de uma Ferrari para ser feliz; qualquer um pode atingir esse nível de satisfação mesmo a bordo de um carrinho 1.0 ou sacolejando no ônibus urbano. A felicidade não está na marca ou no preço do veículo utilizado para o transporte; está no próprio caminho.


Artigo por Antônio Spada


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